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Bernard Arnault: O homem mais rico do mundo

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Misael Guedes

Misael Guedes

Redação

O homem mais rico do mundo

“Bernard Arnault é a minha maior inspiração”, diz Sheron Barber.

Sheron Barber é um designer de moda, diretor criativo e empreendedor da moda norte-americano que ficou muito conhecido por criar artigos de couro personalizados usando couro de marcas de luxo, incluindo Louis Vuitton e Goyard, e por ter designs em seu currículo para artistas como Drake, Post Malone, Billie Eilish e até astros do esporte como LeBron James.

Ele viajou de Los Angeles para a mais luxuosa loja da Louis Vuitton, em Paris, durante o desfile de outono, para homenagear o ídolo. Desenhou cifrões no cabelo, tingiu o cabelo de amarelo, e no maior estilo americano colocou lentes verdes nos dentes. No pescoço, vários cadeados de bagagem da Louis Vuitton presos em uma corrente de aço.

“Gastei algumas centenas de milhares na LV ano passado”, diz Sheron.

Ele faz um bom dinheiro personalizando o estilo de grandes artistas da atualidade como Migos e Post Malone. Inclusive em um dos clipes do último, ele aparece vestindo uma placa de peito construída por Barber que é uma mistura de couro preto e uma bolsa LV.

Para Barber, Arnault definiu sozinho o luxo moderno.

Sobre a loja Place Vendôme, Arnault diz que é uma maison Louis Vuitton excepcional, com seu típico inglês parisiense. “Aqui você pode ver todo o universo da marca”.

Inaugurado em 2017, a loja é uma mistura de museu com um clube privado. Uma série de produtos da LV são exibidos dentro de vitrines reluzentes e em prateleiras artisticamente posicionadas.

As escadas são de mármore com vidro, levam até um ateliê privado no quarto andar, onde 6 costureiras criam vestidos sob medida para celebridades como Lady Gaga e Emma Stone.

Arnault estava realmente envolvido no processo e no projeto. Ele observa de perto as principais marcas, especialmente a Louis Vuitton, segundo ele é o caixa eletrônico do conglomerado, que trouxe pouco mais de 1/4 da receita de US$ 79 bilhões da LVMH em 2022. A LVMH divulga os resultados das suas 5 principais linhas de negócios mas não das marcas individualmente.

“Por que marcas como Louis Vuitton e Dior são tão bem-sucedidas?” Arnault pergunta. “Elas têm dois aspectos que podem ser contraditórios: são atemporais, e estão no nível máximo de modernidade. São como fogo e água.”

Esse paradoxo se traduziu em vendas e lucros recordes na LVMH cuja lista de mais de 70 marcas inclui Fendi , Bulgari , Dior, Sephora, Givenchy e a aquisição mais nova, Tiffany’s. Só em 2022, o lucro líquido da LVMH foi de 14 bilhões de euros, 17% de alta em relação ao ano anterior.

Com isso o idealizador do conglomerado também viu seu patrimônio crescer. Em 2016, o patrimônio de Arnault era de menos de US$ 35 bilhões. Atualmente, a fortuna está avaliada em US$ 233,3 bilhões (pouco mais de R$ 1 trilhão).

Isso torna Bernard Arnault o homem mais rico do mundo, superando Elon Musk. Aos 73 anos, Arnault parece estar preparando o terreno para uma transição. Ele pensa em dividir sua participação igualmente entre seus filhos em algum momento desse ano.

A última aquisição relevante, foi também a maior de todos os tempos para Arnault. A joalheria americana Tiffany entrou no grupo LVMH por US$ 15,8 bilhões.

O início de tudo no norte francês

O início de Arnault no norte industrial da França foi bem diferente do destaque brilhante que ocupa hoje. Ele queria ser um pianista e fazer concertos, foi o seu primeiro amor, mas não tinha o talento necessário.

Buscando alternativas, ele se juntou ao pai na construtora fundada pelo seu avô na cidade de Roubaix após se formar numa escola de engenharia francesa de elite em 1971.

E foi numa conversa despretensiosa com um taxista de Nova Iorque ainda em 1971, que a semente do que se tornaria a LVMH se tornaria foi plantada. Arnault perguntou ao taxista se ele conhecia o presidente da França, Georges Pompidou, na época. “Não”, ele respondeu, “mas conheço Christian Dior”.

Aos 25 anos, Arnault assumiu o comando dos negócios da família. Depois que o socialista François Mitterrand se tornou presidente da França em 1981, Arnault se mudou para os Estados Unidos e tentou construir uma divisão lá. Mas suas ambições eram maiores que a construção.

O objetivo dele era criar uma empresa que pudesse escalar, um negócio com raízes francesas e alcance internacional.

Pouco tempo depois, em 1984, a oportunidade bateu a sua porta, quando soube que Christian Dior estava à venda. A controladora da grife havia falido e o governo francês procurava um comprador. Bernard foi às compras e investiu US$ 15 milhões do dinheiro da sua família e conseguiu o apoio da gigante de serviços financeiros e gestão de ativos Lazard, que entrou no negócio com US$ 80 milhões.

O boato na época era que Arnault prometeu retomar as operações e preservar empregos, mas ao invés disso demitiu 9.000 trabalhadores e vendeu boa parte dos negócios da empresa, lucrando US$ 500 milhões.

Os críticos recuaram diante de sua ousadia, que estava mais americanizada que o refinado estilo francês. Mais tarde, a mídia apelidou Arnault de “lobo de cashmere”. A cashmere é tirada do subpelo de cabras que vivem na cordilheira do Himalaia, parte da região das planícies Tibetanas de Kashmir, no norte da Índia, a Caxemira.

Ainda com seu plano de expansão, o próximo alvo foi a divisão de perfumes da Dior, que havia sido vendida para a Louis Vuitton Moet Hennessy, ele se aproveitou de uma briga entre os sócios das marcas.

Primeiro ele se reuniu com o chefe da Vuitton, uma empresa de artigos de couro cujo fundador havia produzido baús personalizados para a imperatriz Eugénie, esposa de Napoleão III.

Arnault ajudou o chefe da Vuitton a expulsar o chefe da Moet, só pra depois tirar ele também. Então em 1990, novamente apoiado pala Lazard e usando dinheiro da empresa da família, ele assumiu o controle da empresa, que incluía a Moet & Chandon, aquela mesmo, do champanhe, e a Hennessy, um tradicional produtor de conhaque francês fundado em 1765.

A expansão da LMVH

Depois de conquistar a LVMH, Arnault investiu alguns bilhões para trazer pra dentro do grupo as empresas europeias líderes em moda, perfumaria, joias e relógio, além dos vinhos e destilados. Desde 2008, a LVMH comprou 20 marcas, totalizando 79 marcas, embora tenha se desfeito de algumas delas, fechando 75 marcas até o momento.

Em 2011, ela pagou cerca de US$ 5 bilhões pela joalheria italiana Bulgari em um negócio que envolveu mais ações que dinheiro. Dois anos depois comprou o fornecedor de lã fina Loro Piana, por US$ 2,6 bilhões.

Em abril de 2019, a LVMH pagou cerca de US$ 3,2 bilhões pelo grupo hoteleiro Belmond, com sede em Londres, cujas participações incluem o hotel Cipriani em Veneza, a linha de trem de luxo Orient Express e três centros de hospitalidade de safári ultraluxuosos em Botswana.

Mas nem só de sucessos vive Bernard Arnault. Em 2001, ele perdeu o que ficou conhecido no mercado como “guerra das bolsas”, no episódio ele travou uma luta com o seu maior rival, François Pinault, pelo controle da lendária casa de moda italiana Gucci.

Na década seguinte, ele usou uma tática digna de hedge funds, fez o swap de ações liquidados em dinheiro para subir a participação na Hermès, fabricante de lenços de seda finos e da icônica bolsa Birkin, de 182 anos.

No episódio, ele subiu a participação para 17%, a Hermès não aceitou, claro, e travou uma batalha que só acabou em 2017 com a LVMH abrindo mão da maior parte das ações que possuíam e pagando uma multa bilionária.

Hoje, o grupo de luxo LVMH possui 5 grandes linhas de negócios.

-Artigos em Couro e Moda.

-Relógios e Joias.

-Perfumes e Cosméticos.

-Vinhos e Destilados.

-Varejo Seletivo (venda de produtos ou serviços exclusivamente num local específico).

Arnault e sua família possuem pouco mais de 48% do grupo, o resto fica com os demais investidores, principalmente os investidores institucionais.

Fonte: FourWeek Financial

Aproximação com a nova geração

Nos últimos anos, a LVMH está buscando se aproximar mais da geração Millenial, trazendo pro grupo nomes como Rihanna e Stella McCartney, filha de Paul, que é um rosto conhecido nos esforços de sustentabilidade.

Rihanna foi o rosto da linha de cosméticos Fenty Beauty, uma linha de cosméticos e cuidados de beleza em parceria 50/50 entre a cantora e o grupo, que foi distribuída por meio das 2600 lojas da Sephora.

Aproveitando as ofertas de amplo público e os 77 milhões de seguidores só no Instagram. Os estoque acabaram em poucos dias. De acordo com a Vougue, a linha de beleza faturou mais de US$ 100 milhões em vendas nos primeiros 40 dias de lançamento. E pelas estimativas “pessimistas” da Forbes, a Fenty Beauty vale US$ 2,8 bilhões.

A filha mais velha de Arnault, Delphine, diz que o pai trabalha 24hrs por dia. Delphine já foi vice-presidente executiva da Louis Vuitton e atualmente comanda a Christian Dior. “Quando está dormindo, está sonhando com novas ideias.”

Bernard respira seu negócio, todos os sábados ele percorria as lojas de varejo, reorganizando as vitrines de bolsas, e fazendo sugestões aos balconistas.

Ele visitava até 25 lojas, incluindo a concorrência, em uma única manhã, como um ritual, segundo seu filho Frédéric, que trabalha na principal marcas de relógios da LVMH, a TAG Heuer.

Num episódio alguns anos atrás, ele alertou ao antigo CEO da Louis Vuitton, Michael Burke, que a bolsa Onthego de US$2480 não estava em estoque na loja Place Vendôme.

Na época, Burke disse que Arnault reclama muito quando os produtos estão esgotados. Burke trabalha com Arnault desde 1980 e atualmente tem funções administrativas diretamente ligadas à Arnault.

Mesmo com a enorme presença do conglomerado em todo o mundo - 4.590 lojas em 68 países - as aberturas e fechamentos de lojas muitas vezes dependem tanto da intuição de Arnault e do ambiente de um bairro quanto de métricas mais tradicionais, como vendas por metro quadrado.

Na China, um dos mercados mais importantes da LVMH, ele limita o número de lojas Louis Vuitton para controlar o ritmo de expansão. Arnault já chegou a fechar lojas da Louis Vuitton não pela falta de vendas, mas porque as lojas, restaurantes e estacionamentos próximos ao local eram sofisticados o suficiente.

O plano sucessório

Os cinco filhos de Bernard Arnault estão diretamente envolvidos nos negócios da empresa.

Arnault dizia que se aposentaria aos 70 anos, em março completou 74 e está intensificando o processo sucessório para seus filhos.

O filho mais velho, Antoine, foi nomeado diretor geral da holding Christian Dior SE, que controla o grupo LVMH. Ao mesmo tempo ele mantém cargos de diretor-geral da Berluti e CEO da Loro Piana.

Já Delphine foi a escolhida para comandar a Christian Dior no início do ano. Como dito, ela era vice-presidente da Louis Vuitton.

Bernard já afirmou publicamente algumas vezes a vontade de passar o bastão dos negócios aos filhos. Alexandre, é vice-presidente da Tiffany, Frédéric é o CEO da Tag Heuer e Jean, é diretor de marketing da divisão de relógios da Louis Vuitton.

Todos os sábados, os filhos se reúnem com o pai em uma das salas do último andar da sede da LVMH, na Avenida Montaigne.

Não ficamos falando histórias, nós falamos dos desafios do grupo”, disse Arnault às duas jornalistas.

Para a parte burocrática da sucessão, Arnault realizou, ano passado, algumas mudanças no grupo Agache, que controla o grupo de luxo, principalmente por meio da Christian Dior, para perenizar o controle da família sobre o grupo LVMH.

As ações dessa empresa não poderão ser vendidas pelo período de 30 anos e depois só poderão ser passadas a seus herdeiros diretos.

Mesmo já se encaminhando para a sucessão, Arnault ainda tem folego para mais. Mês passado, surgiu um rumor no jornal suíço Finanz und Wirtschaft de que a LVMH teria interesse na compra do grupo suíço Richemont, o segundo maior no luxo mundial, para ficar com a joalheria francesa Cartier.

A aquisição reforçaria a divisão de joalheria e relojoaria da LVMH, já que a Richemont possui marcas como Van Cleef & Arpels, Panerai, Piaget e Jaeger LeCoultre.

Mas parece que Arnault tem um grande obstáculo, Johann Rupert. O fundador do grupo Richemont também fortaleceu as medidas para consolidar a posição da família no grupo. Nenhumas das empresas dos grupo Richemont comentou o caso.

Já no fim da carreira, Bernard Arnault se mostra um grande empreender e visionário, buscando o máximo possível de efetividade nos negócios.

Enquanto outros magnatas e bilionários buscam se dedicar a atividades filantrópicas, Arnault busca expandir ainda mais suas empresas e seu patrimônio. Segundo ele, acorda todos os dias pensando em como manter o grupo muito forte pelos próximos 10 anos.

Antes de proclamar sua visão para seu conglomerado, ele se pega. “De certa forma, não devo dizer isso, porque você pode pensar que sou pretensioso”, diz ele.

Mas então ele diz: “[LVMH] é um monumento francês. Porque representa a França em todo o mundo. As pessoas conhecem melhor o nome de Louis Vuitton, Christian Dior, Dom Pérignon, Cheval Blanc, do que qualquer outra coisa. Talvez eles também conheçam Napoleão? General de Gaulle? Achamos importante que esse grupo, a longo prazo, seja controlado por uma família francesa”.

Essa foi a história de Bernard Arnault, o homem mais rico do mundo e como ele cuida de seus negócios. Espero que tenha gostado e nos vemos no próximo artigo.

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