Economia

A crise de US$ 8,3 trilhões que a China tá escondendo do mundo

15min de leitura

Misael Guedes

Misael Guedes

Redação

Que a China esconde muita coisa do resto do mundo, todos temos certeza. É a típica nação low profile, que não posta nada nem nos stories, na verdade nem tem Instagram, mas sempre que tem que mostrar algo, faz questão de passar aquela fic que a gente sabe que tem algo errado por ali.

Mas ao longo dos últimos anos o gigante asiático tem se afundado em grandes dívidas que podem ser maiores do que estamos acreditando ser.

homem vestindo uma mascara com a bandeira na china no fundo

Vimos esse ano o que o sistema financeiro norte americano passou com o SVB e logo após acompanhamos de perto o Credit Suisse sendo salvo pelo UBS e Governo Suíço. Mas lá na Ásia, isso já havia acontecido em 2019 na própria China, que confiscou um banco regional pra evitar a famigerada e temida “corrida aos bancos”.

Após toda a situação da pandemia a China foi afetada por uma onda de inadimplência num dos setores mais fortes, o imobiliário. E isso já havia começado bem antes, a situação só colocou tudo em evidência.

As incorporadoras ficaram inadimplentes com a falta de compradores e isso trouxe ameaças às hipotecas. O consumidores ficaram mais relutantes e aversos aos riscos de comprar novos terrenos e imóveis.

Esse clima causou essa crise imobiliária que foi de falta de demanda por novas terras a faltas de energia, passando pelos problemas nas cadeias de suprimentos.

Pra um país com bilhões de habitantes, o mercado imobiliário é uma grande fonte de renda para os governos locais da China. Mas a gigante Evergrande levou isso até as últimas consequências, com seu modelo de negócio agressivo.

A empresa, fundada em 1996 é um símbolo dos excessos da bolha imobiliária chinesa, cresceu sem nenhum tipo de controle ou plano robusto nos anos de bonança das duas primeiras décadas deste século.

Seu modelo de negócios se baseava em aproveitar o crédito fácil para construir (com dinheiro emprestado de todo mundo, de bancos, de seus fornecedores, de clientes e até mesmo dos funcionários) edifícios negociados antes da conclusão.

Assim, com esse dinheiro que entrava, executava novos projetos sem nem ter terminado os que já estavam pagos.

Com isso vários setores da economia chinesa experimentaram um crescimento não visto em nenhum outro lugar do mundo. Mercado Financeiro, automotivo, e até o futebol.

Muitos dos clubes são de grandes bilionários chineses, que com o apoio do governo, aproveitaram todo o crescimento do país pra atrair grandes jogadores e com colocar a liga e o país no radar de patrocinadores e estabelecer o futebol chinês como uma potencia mundial. Isso até pouco tempo atrás, quando muitas regras mudaram.

O governo vendo que a forca já apertava o pescoço decidiu fazer uma intervenção pra acabar com a brincadeira sem responsabilidade. A dívida do setor imobiliário já passava dos US$ 5 trilhões.

Uma das medidas foi a que deu o baque final na Evergrande, o modelo de negócios de gerar a pré-venda dos imóveis não poderia ser mais executado, o que tirou a liquidez da gigante, que decidiu fazer liquidação dos imóveis já prontos para terminar os mais de 800 empreendimentos em construção, 400 desses estavam com a produção paralisada por falta de dinheiro para continuar.

Depois de Pequim anunciar essas medidas mais rígidas sobre bancos locais indisciplinados e construtoras mais ousadas, como a Evergrande, pode-se pensar que a China se tornou um lugar mais seguro para os investidores mas existe um risco oculto nisso. O LGFV.

LGFV, a sigla para Local Government Financing Vehicle, ou de forma mais simples, veículos de financiamento do governo local, esses veículos são usados para financiar e fomentar o desenvolvimento local, através dos desenvolvedores que são as empresas.

O Governo Chinês manobra sua economia com esses veículos, os LGFVs são uma ferramenta para o governo tomar dívida, pasme, sem que isso apareça nos balanços. Mas para os investidores, esse mecanismo é visto, obviamente, como uma dívida governamental pelos mercados financeiros.

A dívida total do LGFV aumentou pra US$ 8,3 trilhões em 2022, valor maior que os US$ 8,1 trilhões de 2021, contra US$ 2,4 tri em 2013. Esses US$ 8,3 trilhões representam metade do PIB Chinês, segundo o FMI.

Lembrando que como o próprio governo chinês não considera o LGFV nos seus balanços, essa nem é a dívida oficial do governo. Que é quase a metade da dívida pública total da China, considerando o governo central e os governos locais.

Sem contar empréstimos bancários, os LGFVs captam dinheiro via emissões de títulos corporativos, tipo um CBD, que representam mais de 40% do mercado total de títulos. O valor total chegou a 36 trilhões de yuans (uns ~US$5,5 tri).

Os investidores desses títulos acompanham aflitos o desenrolar dessa trama. A capacidade dos LGFVs de pagarem suas dívidas é pior que a dos desenvolvedores, porque são veículos sem fins lucrativos e usados apenas pra fornecer serviços públicos.

O retorno médio dos ativos dos títulos LGFV foi de apenas 0,4% no primeiro semestre de 2022, segundo dados da Gavekal Dragonomics.

Enquanto isso, mais de 1800 emissores não estão compensando os compradores pelo risco assumido, pagando em média apenas 4,3% de juros ao ano.

Pra piorar a situação, depois da crise da Evergrande e mercado imobiliário, os municípios não conseguem mais ajudar seus LGFVs mesmo que quisessem.

Isso porque, antes do COVID-19, os municípios arrecadavam 20% de sua receita com a venda de terras. Depois das medidas de Pequim, esse fluxo caiu 23%.

O que tá acontecendo é o contrário, os municípios estão recorrendo aos LGFVs para resolver seus problemas financeiros. A bola de neve está formada e rolando.

Em 2022, quando os desenvolvedores deram uma freada para botar as casinhas em ordem, os municípios pegaram mais da metade dos terrenos residenciais vendidos, o que massacrou os balanços ainda mais.

As províncias mais pobres já estão clamando por um socorro do governo central. Uma das províncias da China central, Guizhou, chegou a dizer que estava com problemas para pagar suas dívidas em sua página oficial, mas deletou o post.

Em dezembro do ano passado, Zunyi Road & Bridge Engineering Construction Group, um LGFV local, conseguiu um resgate parcial de seus credores, rolando a dívida de curto prazo por 15,6 bilhões de yuans em empréstimos de 20 anos com juros mais baixos.

Mas outro LGFV, mais conhecido pelos seus licores Baijiu, estava quase desistindo de um dos títulos também no último ano.

Olhando pra trás, dá pra ver claramente que Pequim, não conduziu bem os empréstimos no passado. Em uma auditoria foi constatado que, em 2014, 2/3 da dívida das LGFVs foram reconhecidos como um passivo do governo.

Nos 4 anos seguintes, mais de 12 trilhões de yuans desses empréstimos foram trocados por títulos oficiais do governo. Mas 12 trilhões é diferente de 57, é outro patamar, o balde já não cabe mais tanta água. O barco de Xi Jinping está afundando, enquanto continua a imprimir dinheiro desenfreadamente.

Xiaoxi Zhang, da Gavekal, faz uma observação interessante mas intuitiva acerca disso. As províncias mais pobres como Guizhou, sofrem mais com essa situação, porém possuem quantidades menores de dívidas, já que são vistas como mais arriscadas, e com isso não podem ter muitas dívidas emitidas.

Então, o que Pequim pode fazer, quando essas províncias menores pedirem socorro ou causar algum tipo de pânico nos investidores, seria trocar todos os empréstimos por títulos oficiais do governo.

Mas, e se o pânico não vier de províncias pequenas e mais pobres, com longo histórico de inadimplência com os credores privados? E se vier, por exemplo de províncias mais afortunadas, digamos assim, como Zhejiang ou Jiangsu, que são os maiores emissores de dívida interna?

Aí o cenário muda, é como se trazendo pra nossa realidade tivermos de um lado a Oi pedindo ajuda pra pagar suas dívidas, e do outros o Itaú, meu amigo, se o Itaú pedir ajuda pra pagar as dívidas pode saber que deu ruim legal.

Pequim pode não ser capaz de conter algo desse tipo, aí chegará o Momento Minsky da China. Será ironia do destino dizer que a casa da China caiu, justamente desencadeada pelo mercado imobiliário.

Mas as LGFVs não são de todo ruim. Graças a elas, as pessoas na China podem andar em trens bala de alta velocidade e fazer viagens rodoviárias de baixo custo. Isso teve um preço e as autoridades chinesas vão ter que descobrir como pagar o preço de toda essa estrutura.

Nos vemos nos próximos artigos. E caso queira saber mais sobre o mercado chinês, recomendo os materiais da economista a analista financeira Xiaoxi Zhang, da Gavekal Research.

Artigos que podem te interessar

VAROS 2024

Todos os direitos reservados